Aprender o idioma e o conhecimento chinês

Fonte: CRI Published: 2021-09-10 16:55:46
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Discretamente, o mandarim vem sendo cada vez mais estudado no Brasil, reunindo diferentes perfis de pessoas que buscam o idioma pelos mais variados motivos. Todos procuram o principal idioma chinês n?o apenas pela riqueza da cultura da China, mas por entenderem o papel que este país deve exercer no mundo, nos próximos anos.

Alexandre Wong, aluno

Alexandre Wong, aluno

Os alunos chegam às escolas de língua chinesa por raz?es às vezes curiosas. Uma delas é a de Alexandre Wong, 34 anos, comerciante. Ele é filho de chineses, imigrantes da província de Guangdong, sul da China. Eles falam poucas palavras de mandarim no dia a dia, porque nessa regi?o a língua predominante é o cantonês, e n?o transmitiram o idioma oficial chinês ao filho. Wong, por iniciativa própria, quis recuperar as próprias raízes e aprender mais que apenas o cantonês.

“Eu já tinha familiaridade com alguns sons, com caracteres, mas n?o com o mandarim, o que inicialmente foi um grande desafio. Já passei um tempo na China, pude aprender melhor, também na conversa??o, no dia a dia.” Ele acredita que os estudos podem aprofundar seus conhecimentos sobre a própria sociedade chinesa. “é uma sabedoria milenar. Os próprios caracteres expressam uma filosofia e um conhecimento. O mandarim é uma língua que abre horizontes.”

Thays Ferreira, aluna

Thays Ferreira, aluna

Já a estudante de rela??es internacionais Thays Ferreira, 26, domina vários idiomas e vê facilidades no mandarim, quanto à organiza??o das frases. O problema, segundo a estudante, é o conjunto das palavras, totalmente diferente das nossas. “Para memorizar tudo, já preenchi mais de três cadernos de duzentas folhas, tomando notas de palavras. Um caractere por dia.”, afirma Thays.

é o mesmo que diz o farmacêutico Rodrigo Gabetto, 34. “Eu sempre quis aprender um alfabeto diferente. A escolha pelo mandarim foi pela importancia no mercado de trabalho.” Das dificuldades, ele ressalta a tonalidade e o alfabeto. “Uma palavra muda de sentido conforme a vogal ascendente, neutra ou descendente, mas você acostuma. Já os ideogramas s?o um mundo novo. é preciso muito tempo e dedica??o.”

Rodrigo Gabetto, aluno

Rodrigo Gabetto, aluno

Por fim, Vinicius Dias, 33, professor, é um admirador da cultura oriental. Come?ou como um f? de animes, j-rock e k-pop, viajou para Coreia do Sul, teve contato com a filosofia do Oriente, até perceber que as origens de vários elementos daquelas culturas estavam na China. “A maturidade no meu aprendizado sobre o Oriente me levou à China e ao mandarim”, afirma Vinicius. “Na Coreia, eu fiz amizade com muitos chineses, foram pessoas muito gentis, que me fizeram experimentar essa tradi??o incrível.”

Caracteres exigem paciência, mas s?o a alma da cultura chinesa

As dificuldades apontadas pelos alunos s?o as mesmas que os professores tentam solucionar. Trabalhar os diferentes tons do mandarim é possível, com base em repeti??o para naturaliza??o dos sons. Porém, no caso do alfabeto, a passagem do ensino com o chamado pinyin, ou seja, a adapta??o do chinês em caracteres ocidentais, para a leitura nos ideogramas originais, é muito difícil.

“Isso pode ser muito frustrante para os alunos, porque requer muito tempo de memoriza??o. é preciso muita paciência. Por isso, a estratégia é motivacional. é preciso o tempo todo deixá-los confiantes”, aponta a professora Jing Tingting, do Instituto Confúcio do Rio de Janeiro, que dá aulas desde Xuzhou, província de Jiangsu, remotamente, por causa da pandemia.

“Até para nós é difícil. Em 1956, o Governo simplificou os caracteres, para facilitar a alfabetiza??o, mas nós n?o podemos dissolver o sistema chinês porque ele tem significado para a nossa cultura, ent?o temos que trabalhar métodos, e esse método, a meu ver, é emocional. é cultivar a paciência e a recompensa aos poucos”, conclui Jing.

Aula do prof. Duan no Instituto Confúcio do Rio de Janeiro

Aula do prof. Duan no Instituto Confúcio do Rio de Janeiro

Já o professor Duan Shiguang, que leciona na mesma unidade e está radicado no Rio, ressalta o valor do intercambio cultural para que haja o crescimento do interesse no idioma. Conforme Duan, s?o coisas que caminham juntas.

“Se um estrangeiro conhece bem a China, ele terá um forte interesse em aprender chinês; se um estrangeiro tem um preconceito ou estereótipo sobre a China, será difícil para ele aceitá-lo”, analisa o professor.

Ele aponta a cultura pop coreana e japonesa como fatores que atraem interesse para os idiomas vizinhos, aos quais a China está atenta. “é um fato que o Jap?o e a Coreia têm uma forte cultura pop; por isso o cinema e a televis?o chineses têm florescido nos últimos anos, com plataformas como ‘iQiYi’ e ‘Tencent Video’ fazendo grandes esfor?os para desenvolver seus mercados no exterior. Alguns filmes blockbusters têm sido bem recebidos na Europa e na América.”

Vinicius Dias, aluno

Vinicius Dias, aluno

O mandarim como nova língua internacional

Testemunhos como os de Thays, Rodrigo, que vê no mandarim uma oportunidade para o mercado de trabalho, ou do professor Duan, que afirma a indissociabilidade da língua e da cultura, mostram o quanto a ascens?o de um idioma entre estrangeiros é reflexo do crescimento político, econ?mico e cultural de seu país de origem. Por isso, especialistas veem que, atualmente, o mandarim vem se estabilizando como uma futura língua internacional, tal como o inglês.

Para o professor Wedencley Alves, doutor em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o cenário cultural e geopolítico futuro é multilateral, ou pluricêntrico. Nele, em muitas rela??es, novos idiomas ser?o essenciais, como o mandarim, o russo, o árabe e o próprio português, que representam na??es e povos relevantes nessa configura??o almejada pela China e por vários países parceiros, entre eles o Brasil.

“A língua n?o é apenas um instrumento. Ela é portadora de memória, de valores, da cultura. Portanto, o inglês, que é o mais usado hoje para rela??es internacionais, n?o dá conta de rela??es n?o mais lideradas por países de origem britanica, que tradicionalmente estiveram à frente do Ocidente capitalista. Eu prevejo uma situa??o n?o de novos domínios linguísticos, mas de descentraliza??o, do uso de mais idiomas como gesto mútuo de admira??o e confian?a.”

A pesquisadora do Instituto ásia, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Melissa Cambuhy, entende que é importante que o mandarim se torne mais falado no mundo, já que a difus?o do chinês e de outras línguas seria mais um passo nos esfor?os pelo multilateralismo.

Se a humanidade viu idiomas se difundirem pelo mundo, criando hegemonias como as do latim e do árabe, na Idade Média, ou do francês e do inglês no Ocidente contemporaneo, o século XXI pode ser o primeiro a apresentar essa nova configura??o: muitos idiomas, mais de um alfabeto, e o interesse cultural ou profissional de pessoas como Vinicius, Thays e Rodrigo tornando-se o fundamento da rela??o entre os países.

por Hélio de Mendon?a Rocha, articulista e repórter de política internacional

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